Se no primeiro rolo de filme apresentamos o homem, agora a câmera fecha no método. Aqui não se trata mais de quem foi Rabolú, mas do que ele realmente propôs. E aviso logo: esta filosofia não foi feita para inspirar frases de efeito, mas para desmontar certezas.
O Super 8 ajusta o foco porque o assunto exige precisão. A filosofia de Rabolú não se sustenta em crença, mas em prática. Não pede fé cega, pede coragem. E coragem, como sabemos, anda em falta.
Este artigo funciona sozinho, mas dialoga com o anterior como dois quadros do mesmo filme. Lá, o personagem histórico. Aqui, a engrenagem interna que ele insistia em colocar para girar.
Prepare-se: não há atalhos, metáforas confortáveis ou final açucarado.
O ser humano como máquina inconsciente
Para Rabolú, o ponto de partida era simples e devastador: o ser humano não vive, reage. A maior parte das ações diárias acontece de forma mecânica, guiada por impulsos automáticos, hábitos emocionais e condicionamentos antigos.
A essa condição ele chamava de sono psicológico. Um estado em que a pessoa acredita ter controle, mas apenas responde a estímulos internos que desconhece.
Não se trata de ignorância intelectual. Pessoas cultas, religiosas ou espirituais também vivem nesse estado. O problema não é falta de informação, é falta de consciência.
A filosofia de Rabolú começa onde quase todas param: no reconhecimento honesto de que não somos tão livres quanto gostamos de pensar.
Auto-observação: o início do desconforto
O primeiro exercício prático proposto por Rabolú era a auto-observação constante. Observar pensamentos, emoções e reações sem justificá-los, sem condená-los e, principalmente, sem romantizá-los.
Aqui não há espaço para autoimagem positiva. A observação é crua. O indivíduo começa a perceber contradições internas, mudanças repentinas de humor e impulsos que surgem sem convite.
Esse processo, segundo Rabolú, já é profundamente perturbador. Porque desmonta a ilusão de unidade interior. O “eu” começa a se fragmentar diante do olhar atento.
O Super 8 interrompe a projeção só para lembrar: ninguém gosta de se observar de verdade. Por isso, quase ninguém continua.
Morte psicológica: o núcleo da filosofia
A ideia mais conhecida — e mais mal compreendida — de Rabolú é a chamada morte psicológica. Não se trata de repressão moral nem de controle comportamental.
Eliminar um defeito, para ele, exigia três etapas: identificação clara, compreensão profunda e, então, a dissolução consciente daquele “eu”. Sem teatro interno, sem negociação.
Enquanto o defeito é apenas reprimido, ele permanece ativo nos bastidores da mente. A morte psicológica, ao contrário, busca eliminar a raiz, não o sintoma.
É aqui que muitos abandonam o caminho. Porque matar ilusões internas dói mais do que suportar problemas externos.
Consciência, liberdade e solidão
Segundo Rabolú, à medida que os defeitos psicológicos são eliminados, a consciência se liberta. Não como um prêmio místico, mas como consequência natural.
Essa libertação traz clareza, mas também solidão. O indivíduo deixa de se apoiar em crenças coletivas, discursos prontos e muletas emocionais.
Por isso, Rabolú insistia que ninguém pode fazer o trabalho por outro. Mestres ensinam, livros orientam, mas o processo é solitário e intransferível.
O Super 8 encerra este segundo rolo com uma observação incômoda: liberdade interior não é popular porque exige responsabilidade total.
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