Ora, ora… abaixa o volume do incenso, ajusta o foco da lente e presta atenção. Hoje não tem espiritualidade decorativa, nem frase de almanaque. O nome em cartaz é Mestre Rabolú, um sujeito que entrou na história não por agradar, mas por incomodar. E aviso logo: este artigo não é um convite ao conforto, é um espelho.
Rabolú não falava para multidões carentes de esperança fácil. Ele falava para quem estava disposto a ouvir algo que ninguém quer escutar: o problema não está no mundo, está dentro de você. Sim, você mesmo, leitor atento que achou que vinha só aprender história.
Aqui, o Super 8 segura a câmera com uma mão e aponta o dedo com a outra. Nada de mitificação gratuita, nada de ataque raso. Contexto histórico, filosofia nua e aquele sarcasmo cirúrgico que corta sem anestesia.
Respira fundo. A película vai rodar.
Quem foi o Mestre Rabolú
Por trás do nome Rabolú estava Joaquín Enrique Amórtegui Valbuena, colombiano, nascido em 1926, criado longe de bibliotecas refinadas e ainda mais longe de qualquer pedestal espiritual. Ele não surgiu dos salões do saber, mas do chão batido da experiência.
Discípulo direto de Samael Aun Weor, Rabolú representava o oposto do mestre carismático clássico. Onde muitos explicavam, ele cortava. Onde muitos prometiam, ele advertia. E onde havia aplauso, ele desconfiava.
Enquanto o gnosticismo moderno crescia na América Latina com discursos simbólicos e linguagem elaborada, Rabolú surgia como um corpo estranho. Falava simples, direto e, para muitos, até rude. Mas rude, aqui, não é sinônimo de superficial.
Ele não queria seguidores encantados. Queria indivíduos conscientes. E isso, convenhamos, sempre dá problema.
O incômodo como método
Rabolú acreditava que uma espiritualidade que não incomoda é apenas entretenimento psicológico. Para ele, o ser humano vive hipnotizado por seus próprios defeitos, presos a uma rotina interna que se repete como um filme mal editado.
É aqui que entra o conceito dos “eus psicológicos”. Pequenas vontades, medos, vaidades e impulsos que disputam o controle da mente como atores brigando pelo papel principal.
Segundo Rabolú, não existe um “eu” único e consciente na maioria das pessoas. Existe uma multidão barulhenta. E enquanto essa multidão governa, não há liberdade possível.
Sim, leitor, neste ponto o Super 8 quebra a quarta parede apenas para avisar: se você se sentiu levemente desconfortável, o método está funcionando.
Contra o misticismo confortável
Rabolú tinha verdadeira aversão ao misticismo fantasioso. Sonhos coloridos, visões infladas e discursos grandiosos eram, para ele, armadilhas do próprio ego tentando se perpetuar.
Ele não negava experiências espirituais, mas alertava: sem transformação interior real, qualquer experiência vira combustível para orgulho espiritual. E orgulho, nesse caminho, é retrocesso.
Não havia espaço para dependência emocional de mestres, organizações ou rituais. A responsabilidade era individual, intransferível e, sejamos honestos, nada confortável.
Enquanto muitos buscavam iluminação, Rabolú perguntava algo bem mais simples e cruel: você já começou a se conhecer?
O legado de um mestre indigesto
Após a morte de Samael Aun Weor, Rabolú tornou-se uma das figuras mais influentes e controversas do gnosticismo contemporâneo. Sua postura rígida gerou divisões, críticas e, claro, muitos desafetos.
Mas a história não é feita apenas de personagens agradáveis. Às vezes, ela avança graças aos que recusam suavizar a verdade para caber em molduras bonitas.
Rabolú deixou um legado de disciplina, autoconhecimento e seriedade. Um caminho que não promete felicidade imediata, mas lucidez. E isso, em tempos de distração crônica, é quase revolucionário.
O Super 8 encerra esta parte da projeção lembrando: entender quem foi Rabolú é fácil. Difícil é aceitar o que ele exigia de quem o escutava.
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