O ponto de partida: o nada não é tão simples
Quando se fala em “nada”, a intuição humana imagina ausência total: sem espaço, sem tempo, sem regras, sem possibilidade. O problema é que esse “nada absoluto” não produz explicações. Se nada existe, nada acontece. Não há movimento, não há surgimento, não há transição.
Por isso, quando a ciência fala em “nada”, ela está falando de um cenário muito diferente: um estado mínimo, mas ainda cheio de estrutura. Há campos, possibilidades e regras básicas. Esse “nada” já é alguma coisa.
Leis, regras e entropia
Leis são conjuntos de regras que delimitam o que pode ou não acontecer. A entropia, por exemplo, não cria ordem nem desordem do zero; ela apenas descreve como sistemas se transformam ao longo do tempo.
Para que a entropia exista, já é necessário um sistema, estados possíveis e probabilidades. Isso significa que as leis não surgem espontaneamente dentro do próprio processo que regulam. Elas são a moldura, não o quadro.
Movimento e origem
Nada verdadeiramente inerte se move por conta própria. Sempre há instabilidade, diferença ou assimetria. Quando existe ação e reação, já existe um cenário onde algo pode acontecer. O movimento não nasce do vazio absoluto, mas de condições que permitem mudança.
Isso desloca a pergunta fundamental: não é apenas “como o universo se move”, mas “por que existem condições que permitem movimento”.
O “criar do nada” e seus sentidos
A ideia bíblica de “criar do nada” não é uma explicação física. Ela não descreve partículas, energia ou leis naturais. Trata-se de uma afirmação filosófica: o mundo não depende de matéria anterior a ele.
Já a ciência não trabalha com esse “nada absoluto”. Ela descreve processos a partir de estados iniciais observáveis ou inferidos. São linguagens diferentes para perguntas diferentes.
Arquitetos, fundamentos e limites
A ideia de um arquiteto ou criador pode explicar intenção, mas não explica o funcionamento das engrenagens do universo. Mesmo supondo um agente criador, a pergunta permanece: de onde vem a capacidade de agir e gerar movimento?
O problema não desaparece; apenas muda de nível. Toda explicação última parece encostar em algo que não pode ser explicado por aquilo que explica.
A hipótese do universo simulado
A ideia do universo simulado surge como uma metáfora moderna: talvez o universo funcione como um sistema com regras definidas, limites e estrutura, assim como um ambiente digital. Isso explicaria por que as leis parecem tão ajustadas e estáveis.
No entanto, essa hipótese não resolve a questão fundamental. Ela apenas desloca a pergunta: quem criou o sistema que simula tudo? A origem última continua fora do alcance.
Onde tudo isso nos deixa
A ciência explica processos, não fundamentos finais. A filosofia investiga condições de possibilidade. A teologia fala de sentido último. Nenhuma delas, isoladamente, fecha a questão.
O que permanece é o mistério central: não apenas como o universo funciona, mas por que existe algo em vez de nada.

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