A trajetória de Ernesto “Che” Guevara permanece como uma das mais debatidas da história política do século XX. Médico argentino transformado em revolucionário internacionalista, sua vida atravessou fronteiras geográficas e ideológicas, deixando marcas profundas na América Latina e no imaginário global. Entre documentos históricos, análises acadêmicas e reportagens investigativas, emerge uma figura complexa: ao mesmo tempo estrategista militar, formulador teórico e símbolo cultural que ultrapassou o próprio contexto da Revolução Cubana.
Formação, Viagens e Radicalização Política
Nascido em 1928, em Rosário, na Argentina, Ernesto Guevara de la Serna cresceu em um ambiente de forte estímulo intelectual, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas por sua família. Portador de asma crônica desde a infância, desenvolveu disciplina e resistência que mais tarde marcariam sua atuação política e militar. Sua formação em Medicina na Universidade de Buenos Aires contribuiu para moldar uma visão humanista, inicialmente voltada à saúde pública e às desigualdades sociais.
A virada ideológica ocorreu durante sua célebre viagem pela América Latina entre 1951 e 1952. Percorrendo países como Chile, Peru e Colômbia, Guevara testemunhou de perto a pobreza estrutural, a exploração de trabalhadores e as desigualdades agrárias. Essa experiência, registrada posteriormente em seus diários, consolidou sua percepção de que as injustiças não eram casos isolados, mas parte de um sistema econômico que, em sua visão, precisava ser transformado de maneira estrutural.
Após concluir o curso de Medicina em 1953, Guevara intensificou seu envolvimento político ao entrar em contato com movimentos reformistas e revolucionários na Guatemala e no México. O golpe que derrubou o presidente Jacobo Árbenz, apoiado por interesses externos, reforçou sua leitura crítica sobre o papel do imperialismo na América Latina. Foi nesse contexto que se aproximou de exilados cubanos e conheceu Fidel Castro, iniciando uma parceria que mudaria o rumo de sua vida.
O Encontro com a Revolução Cubana
No México, em 1955, Guevara integrou o grupo que planejava derrubar o regime de Fulgencio Batista em Cuba. A adesão ao Movimento 26 de Julho marcou sua transição definitiva de médico para combatente revolucionário. Sua atuação não se limitou ao campo militar; ele rapidamente se destacou pela disciplina, pela capacidade estratégica e pelo compromisso ideológico com o marxismo, que passou a orientar suas decisões políticas.
Durante a campanha na Sierra Maestra, Guevara desempenhou papel central na organização das colunas guerrilheiras, combinando táticas militares com trabalho político junto às comunidades locais. A estratégia de guerrilha adotada buscava enfraquecer gradualmente o exército de Batista, enquanto consolidava apoio popular. Essa experiência se tornaria posteriormente base para suas reflexões teóricas sobre a guerra revolucionária.
Com a vitória da Revolução Cubana em 1959, Che Guevara emergiu como uma das principais figuras do novo governo. Sua trajetória inicial, marcada por viagens formativas, radicalização ideológica e atuação armada, revela como experiências pessoais e conjunturas políticas se entrelaçaram na construção de um personagem histórico que permanece objeto de intensos debates acadêmicos e jornalísticos.
Atuação no Governo Cubano e Projetos Econômicos
Após a consolidação da Revolução em 1959, Che Guevara assumiu funções estratégicas no novo Estado cubano, tornando-se presidente do Banco Nacional de Cuba e, posteriormente, Ministro da Indústria. Sua nomeação para cargos econômicos demonstrava a confiança política depositada nele por Fidel Castro, mas também refletia a intenção de implementar uma profunda reorganização estrutural baseada em princípios socialistas e no rompimento com a dependência econômica externa.
À frente do Banco Nacional, Guevara defendeu a centralização financeira e a substituição de mecanismos de mercado por planejamento estatal. Já no Ministério da Indústria, buscou acelerar a industrialização da ilha, reduzindo a histórica dependência do açúcar e promovendo novos setores produtivos. Seu modelo priorizava o planejamento centralizado e o engajamento ideológico dos trabalhadores como motor produtivo, numa tentativa de criar o que chamava de “homem novo”.
No entanto, suas propostas geraram controvérsias internas e externas. Economistas apontaram dificuldades práticas na implementação do modelo, incluindo problemas de eficiência, escassez de recursos e tensões com parceiros comerciais. Ainda assim, seus discursos e escritos desse período revelam um esforço sistemático de articular teoria marxista, experiência concreta e realidade latino-americana, consolidando sua imagem como dirigente que buscava unir ação política e reflexão intelectual.
Debates Ideológicos e Críticas Internacionais
Durante os primeiros anos do governo revolucionário, Guevara participou ativamente de debates sobre os rumos do socialismo cubano, defendendo uma postura crítica em relação ao modelo soviético. Ele argumentava que a excessiva dependência de estímulos materiais poderia enfraquecer a consciência revolucionária, sustentando que a motivação moral e coletiva deveria ocupar papel central na construção do socialismo.
Ao mesmo tempo, seu envolvimento em tribunais revolucionários após 1959 permanece um dos pontos mais controversos de sua trajetória. Documentos e reportagens jornalísticas registram sua atuação em processos contra membros do antigo regime, o que alimentou críticas internacionais acerca do uso da violência revolucionária como instrumento de consolidação do poder político.
No cenário global da Guerra Fria, Che tornou-se porta-voz do posicionamento cubano em fóruns internacionais, inclusive nas Nações Unidas, onde denunciou o imperialismo e a interferência externa na América Latina. Sua atuação diplomática reforçou sua imagem de líder revolucionário internacionalista, ao mesmo tempo em que ampliou as divisões em torno de seu legado político e moral.
Internacionalismo, Guerrilha e Construção do Mito
Em meados da década de 1960, Che Guevara decidiu deixar suas funções no governo cubano para retomar a luta armada em outros territórios. Sua convicção era de que a revolução deveria ultrapassar as fronteiras nacionais e enfrentar o que via como estruturas globais de dominação. Essa postura consolidou sua imagem como defensor do internacionalismo revolucionário, mas também evidenciou divergências estratégicas dentro do próprio campo socialista.
Sua primeira experiência foi no Congo, onde tentou apoiar movimentos insurgentes locais, mas encontrou dificuldades logísticas, culturais e militares que comprometeram a iniciativa. Posteriormente, instalou-se na Bolívia, acreditando que a região poderia se tornar foco irradiador de revoluções no continente. A estratégia, no entanto, enfrentou isolamento político, falta de apoio camponês e intensa repressão das forças armadas locais.
Capturado em outubro de 1967 pelo Exército boliviano, Guevara foi executado pouco depois, encerrando sua trajetória prática como guerrilheiro. Paradoxalmente, sua morte marcou o início da consolidação simbólica de sua figura. A partir desse momento, sua imagem passou a circular globalmente como representação de resistência, juventude insurgente e contestação política, ampliando o alcance de seu legado para além do contexto latino-americano.
Legado, Memória e Controvérsias Historiográficas
O legado de Guevara é objeto de análises acadêmicas que buscam compreender tanto sua atuação concreta quanto sua transformação em ícone cultural. A famosa fotografia conhecida como Guerrillero Heroico tornou-se uma das imagens mais reproduzidas do século XX, sendo apropriada por movimentos sociais, campanhas políticas e até pela indústria cultural, muitas vezes desvinculada do conteúdo ideológico original.
No campo historiográfico, pesquisadores destacam a necessidade de analisar seus escritos, discursos e correspondências para além da mitificação. Seus textos sobre guerrilha e economia revelam preocupações teóricas consistentes, ainda que marcadas por forte idealismo político. Ao mesmo tempo, críticas apontam limitações estratégicas e decisões controversas que continuam alimentando debates sobre ética e eficácia revolucionária.
A permanência de seu nome no debate público demonstra como figuras históricas podem assumir significados distintos ao longo do tempo. Para alguns, Che simboliza coerência ideológica e compromisso radical com a transformação social; para outros, representa os riscos inerentes a projetos políticos baseados na confrontação armada. Essa ambivalência é central para qualquer análise séria sobre sua trajetória.
Fontes e Referências: Este artigo foi elaborado com base em pesquisas históricas, obras acadêmicas e publicações jornalísticas reconhecidas internacionalmente. Entre as principais fontes consultadas estão:
- “Che Guevara” — perfil biográfico e análise histórica no History.com, que examina sua vida, papel na Revolução Cubana e legado global. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
- Ernesto ‘Che’ Guevara: A Research Bibliography, publicado pela Cambridge University Press, que mapeia a produção literária e documental sobre Guevara. :contentReference[oaicite:1]{index=1}
- Obras do próprio Che, como The Motorcycle Diaries e Guerrilla Warfare, que figuram entre suas narrativas autobiográficas e manuais estratégicos sobre guerra revolucionária. :contentReference[oaicite:2]{index=2}
- The Marxism of Che Guevara de Michael Löwy, uma análise crítica da filosofia e pensamento político de Guevara. :contentReference[oaicite:3]{index=3}
- Estudos contemporâneos sobre a Revolução Cubana e seu impacto sociopolítico em periódicos acadêmicos brasileiros e internacionais. :contentReference[oaicite:4]{index=4}
Créditos: Pesquisa e artigo produzidos por Rodrigo Pontes.
Data: 23 de fevereiro de 2026.



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