A formação do Rio de Janeiro está profundamente ligada ao sistema escravista que sustentou sua economia, estruturou seu espaço urbano e moldou suas desigualdades sociais. Entre os séculos XVIII e XIX, a cidade tornou-se o maior porto receptor de africanos escravizados das Américas, deixando marcas históricas que ainda ecoam na sociedade brasileira contemporânea.
Durante o período colonial e imperial, o Rio de Janeiro consolidou-se como principal centro do tráfico atlântico de africanos escravizados no Atlântico Sul.
Estima-se que cerca de um milhão de pessoas tenham desembarcado na região portuária em aproximadamente quarenta anos, segundo dados reconhecidos internacionalmente.
O Cais do Valongo como epicentro do tráfico
A partir de 1774, o desembarque foi oficialmente concentrado na região do Valongo, transformando o local no maior ponto receptor de africanos escravizados das Américas.
Os recém-chegados eram mantidos em barracões, expostos à inspeção e frequentemente submetidos a práticas de “engorda” para valorização comercial.
Escavações arqueológicas documentadas pelo IPHAN confirmam a materialidade desse sistema e revelam vestígios das condições desumanas enfrentadas.
Reconhecimento histórico e simbólico
O sítio arqueológico foi reconhecido como Patrimônio Mundial, consolidando sua importância para a memória da diáspora africana.
Esse reconhecimento reposiciona o espaço como território de memória, reflexão e justiça histórica.
O antigo cais tornou-se símbolo da memória da escravidão no Brasil e no mundo.
A economia fluminense foi estruturada sobre a mão de obra escravizada, base das grandes atividades produtivas da época.
As culturas de açúcar e, posteriormente, de café sustentaram a riqueza da elite imperial e financiaram a expansão urbana da capital.
Economia escravista e formação do poder
No século XIX, o ciclo do café ampliou ainda mais a dependência do trabalho escravizado, consolidando o Rio como centro político e financeiro do Império.
A concentração de renda e de terras fortaleceu uma elite econômica enquanto aprofundava a exclusão social da população negra.
Pesquisas históricas e dados institucionais demonstram que essa estrutura econômica moldou a formação urbana e social da cidade (ver estudos no MUHCAB).
As raízes da desigualdade estrutural
A abolição formal em 1888 ocorreu sem políticas públicas de integração econômica e social.
Sem acesso à terra, educação ou crédito, a população negra foi empurrada para a marginalização.
Essa exclusão histórica ajuda a explicar as desigualdades estruturais persistentes no Brasil contemporâneo.
A presença africana deixou marcas profundas na cultura carioca, influenciando religião, música, culinária e formas de organização social.
A região portuária tornou-se espaço de resistência cultural e preservação das tradições afro-brasileiras.
A Pequena África e a construção cultural
Áreas como Praça Onze, Estácio e Pedra do Sal ficaram conhecidas como Pequena África, núcleo de manifestações culturais negras.
Esses territórios foram fundamentais para o surgimento do samba urbano e para a consolidação de identidades coletivas.
Instituições culturais e pesquisas acadêmicas reforçam o papel central desses espaços na história social da cidade.
Memória, identidade e patrimônio
O Cemitério dos Pretos Novos e a Pedra do Sal são hoje locais de memória e reconhecimento histórico.
Esses espaços reafirmam a importância da preservação da narrativa afro-brasileira na construção da identidade nacional.
Reconhecer esse legado é compreender que o passado escravista é parte estruturante da história do Rio de Janeiro.
UNESCO – Sítio Arqueológico do Cais do Valongo: https://whc.unesco.org/en/list/1548/
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: http://portal.iphan.gov.br/
MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira: https://muhcab.prefeitura.rio/
Mundo Educação – Escravidão no Brasil: https://mundoeducacao.uol.com.br/
Texto: Rodrigo Pontes
Data: 25/02/2026



0 Comentários